Sophia Descobriu 🔎 · Descobertas
Como Napoleão morreu? Entenda o que a ciência diz sobre o câncer no estômago, o arsênio no cabelo e o exílio na ilha de Santa Helena.
Resposta rápida: como Napoleão morreu? Napoleão Bonaparte morreu em 5 de maio de 1821, aos 51 anos, na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde vivia exilado. A explicação mais aceita é uma doença grave no estômago, provavelmente câncer, que terminou num sangramento forte. O arsênio encontrado no cabelo dele é real, mas também aparecia em amostras de quando ele era criança: mostra exposição, não assassinato.
Como uma aula de História virou investigação
Eu estava estudando a Revolução Francesa na escola quando Napoleão Bonaparte entrou na história, com general, imperador, batalhas, conquistas e um monte de datas para decorar. Até aí, tudo normal. Só que uma pergunta grudou na minha cabeça e não saiu mais: afinal, como Napoleão morreu?
Meu palpite foi óbvio: numa batalha, claro. Alguém que passou a vida comandando exércitos devia ter um final dramático, com canhão, cavalo e trilha sonora épica.
Spoiler: não foi nada disso.
Napoleão morreu longe da França, numa ilha minúscula no meio do oceano, depois de meses doente. E, mais de cem anos depois, cientistas encontraram arsênio no cabelo dele. Sim, arsênio, aquele veneno de livro de mistério. Nessa hora, minha lição de História virou caso de detetive. Mas, antes de sair gritando “assassinato!”, eu precisava descobrir uma coisa: encontrar arsênio prova que alguém matou Napoleão?
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Neste texto
- Como uma aula de História virou investigação
- Primeiro: o que Napoleão tem a ver com a Revolução Francesa?
- Como o homem que dominou meia Europa foi parar numa ilha?
- Então, de que Napoleão morreu?
- E o arsênio encontrado no cabelo de Napoleão?
- A pista que virou o jogo: o arsênio já estava lá antes
- O papel de parede pode ter sido o culpado?
- E os remédios? O debate não terminou
- Meu quadro de investigação: fato ou hipótese?
- Para continuar a investigação (sem gastar muito)
- O que eu descobri 🔎
- Perguntas frequentes sobre a morte de Napoleão
- Fontes consultadas
Primeiro: o que Napoleão tem a ver com a Revolução Francesa?
A primeira coisa que eu precisei fazer foi colocar tudo na ordem certa, porque na minha cabeça estava uma salada. A Revolução Francesa começou em 1789, e Napoleão não começou a Revolução: nessa época ele era só um jovem militar, nascido na Córsega em 1769.
Ele ficou famoso nas guerras que vieram depois. Em 1799, participou de um golpe de Estado conhecido como 18 de Brumário e virou primeiro-cônsul, o principal governante da França. Em 1804, foi coroado imperador dos franceses. Ou seja: a Revolução abriu o caminho, e ele aproveitou a confusão para chegar ao poder.
Para não me perder, montei uma linha do tempo com notas adesivas coloridas na parede do quarto, uma cor para a Revolução e outra para Napoleão. (Minha parede virou um arco-íris de datas.) Se você também se confunde, um livro ilustrado sobre a Revolução Francesa ajuda muito, porque mostra o que aconteceu antes de Napoleão aparecer. Foi aí que veio a primeira surpresa: Napoleão não é “o homem da Revolução Francesa”, ele é o homem que veio depois dela.

Como o homem que dominou meia Europa foi parar numa ilha?
Depois de anos de guerra, Napoleão começou a perder. Em 1814, foi mandado para o exílio na ilha de Elba, no Mediterrâneo. Mas ele não ficou quieto: fugiu em 1815, voltou para a França e governou de novo por um tempinho, num período chamado de Cem Dias.
A derrota final veio na Batalha de Waterloo, em 18 de junho de 1815. Dessa vez os ingleses não quiseram arriscar e mandaram Napoleão para o lugar mais longe possível: Santa Helena, uma ilha vulcânica no Atlântico Sul, a quase 2 mil quilômetros da costa da África. Ele chegou em outubro de 1815 e viveu numa casa chamada Longwood, vigiado pelos britânicos, até o fim da vida.
Quando abri um atlas histórico e procurei Santa Helena, levei um susto: é um pontinho perdido no mar. Fugir de lá não era uma opção (e, conhecendo o histórico dele, os ingleses pensaram exatamente nisso). Um homem que governou um império terminou a vida num lugar onde quase nada acontecia, e morreu não num campo de batalha, mas numa cama.

Então, de que Napoleão morreu?
A explicação mais aceita é que Napoleão tinha uma doença grave no estômago, provavelmente câncer. Nos últimos meses, ele tinha dor na barriga, quase não comia, vomitava e piorava cada vez mais. E um detalhe que me deixou arrepiada: o pai dele, Carlo Bonaparte, também teria morrido de câncer no estômago.
Na autópsia, feita no dia seguinte à morte, os médicos registraram uma lesão no estômago e sinais de sangramento. Em 2007, pesquisadores dos Estados Unidos, da Suíça e do Canadá compararam esses relatórios antigos com o que a medicina sabe hoje. A conclusão: era um câncer de estômago bem avançado, e o sangramento foi provavelmente a causa imediata da morte. Eles analisaram documentos, não um paciente, por isso a palavra “provavelmente” é tão importante aqui.
E teve uma pesquisa que eu achei genial. Em 2005, cientistas suíços mediram 12 calças que Napoleão usou entre 1800 e 1821 para descobrir quanto ele pesava. Resultado: ele foi de uns 67 quilos para 90 quilos até 1820, e depois perdeu 11 quilos no último ano de vida, o que combina com uma doença que vai piorando. Quem diria que calça velha vira prova científica? Anotei essa no meu caderno de pesquisa, na coluna “pistas que eu nunca imaginei”.

E o arsênio encontrado no cabelo de Napoleão?
Agora a parte de livro de mistério. Em 1961, pesquisadores publicaram na revista científica Nature uma análise de fios de cabelo de Napoleão e encontraram arsênio em quantidade alta. Pronto: nasceu a teoria do envenenamento.
E eu entendo por quê. Napoleão estava preso, tinha muitos inimigos e vivia cercado de gente que vigiava cada passo dele, o começo perfeito de uma série policial. Só que uma situação suspeita não é a mesma coisa que uma prova.
O cabelo funciona como um diário do corpo, porque guarda sinais das substâncias com que a pessoa teve contato. Mas, sozinho, não conta de onde veio o arsênio, quanto foi engolido ou se alguém queria matar. Para separar o que foi medido do que é interpretação, usei um marca-texto de duas cores: amarelo para fato, rosa para hipótese. A página ficou bem mais rosa do que eu esperava.
A pista que virou o jogo: o arsênio já estava lá antes
Em 2004, uma pesquisa comparou cabelos de Napoleão cortados em 1814, quando ele estava em Elba, e em 1821, depois da morte em Santa Helena. Todos tinham arsênio alto. Se o arsênio já estava lá sete anos antes, a teoria de um envenenamento secreto em Santa Helena começa a balançar.
Em 2008, físicos italianos foram ainda mais longe. Usaram um pequeno reator nuclear de pesquisa (sim, um reator nuclear para analisar cabelo) e examinaram fios de Napoleão de quando ele era menino na Córsega, do exílio em Elba, do dia da morte e do dia seguinte. Analisaram também cabelos da imperatriz Josefina e do filho dele. Todos tinham arsênio, cerca de 100 vezes mais do que o cabelo de pessoas de hoje. E o mais surpreendente: não havia diferença importante entre o Napoleão criança e o Napoleão no fim da vida.
Traduzindo: naquela época, todo mundo absorvia arsênio, pelo ambiente, por produtos e até por remédios e “tônicos” que tinham pequenas doses dessa substância. Nessa hora eu fiz o que todo detetive de série faz e montei um quadro de cortiça com alfinetes e linhas ligando datas, lugares e estudos. Fica com cara de filme e ajuda de verdade a ver o que se conecta e o que não se conecta.

O papel de parede pode ter sido o culpado?
Essa eu não esperava. No século XIX, um pigmento feito com arsênio deixava tintas e papéis de parede de um verde lindo. Em 1980, um químico chamado David Jones perguntou num programa de rádio da BBC se alguém sabia a cor do papel de parede de Napoleão, e uma ouvinte respondeu que tinha um pedacinho original guardado num álbum de família!
A análise mostrou arsênio no papel. A casa de Longwood era famosa por ser úmida, e com umidade o mofo crescia e soltava arsênio no ar. Em 1982, os cientistas concluíram que aquilo podia deixar alguém doente, mas provavelmente não matar. O próprio Jones achava que Napoleão morreria de qualquer jeito, e que o papel de parede talvez tenha só apressado as coisas.
Para olhar os detalhes das gravuras antigas de Longwood que encontrei na internet, uma lupa foi minha melhor amiga. Ela não resolve mistério nenhum, mas faz a gente reparar no que passa batido.

E os remédios? O debate não terminou
Uma revisão científica publicada em 2020 juntou dezenas de estudos sobre a morte de Napoleão, e a conclusão dela é mais complicada do que “foi câncer” ou “foi veneno”. Os autores lembram que a autópsia também mostrou uma úlcera com sangramento e que, nos últimos dias, Napoleão recebeu remédios com antimônio, mercúrio e arsênio, comuns na medicina da época.
Para eles, a morte foi causada por um sangramento enorme no estômago, e essas substâncias podem ter provocado ou piorado esse sangramento numa pessoa que já estava muito doente, talvez com câncer. Por isso classificaram a morte como “não natural”. Mas atenção: eles deixam claro que isso não quer dizer que alguém quis matá-lo.
Então existem três frases bem diferentes: “Napoleão foi exposto ao arsênio”, “os remédios da época podem ter piorado o estado dele” e “alguém assassinou Napoleão de propósito”. Só a terceira precisa de prova de crime, e essa prova nunca apareceu. Para guardar essa diferença, fiz cartões de estudo com a frase de um lado e “fato ou hipótese?” do outro. Virou jogo na hora do lanche.

Meu quadro de investigação: fato ou hipótese?
| Afirmação | O que as evidências permitem dizer |
|---|---|
| Napoleão morreu em Santa Helena em 1821. | Fato histórico documentado. |
| Havia arsênio alto no cabelo dele. | Resultado de várias análises científicas. |
| O arsênio já aparecia desde a infância. | Resultado do estudo de 2008, com amostras de épocas diferentes. |
| Ele provavelmente tinha câncer no estômago. | Hipótese médica forte, apoiada na autópsia e na perda de peso. |
| Remédios tóxicos podem ter piorado o sangramento. | Hipótese defendida na revisão de 2020, sem consenso. |
| Napoleão foi assassinado com arsênio. | Nunca foi demonstrado. |
Para continuar a investigação (sem gastar muito)
Você não precisa comprar nada para aprender História, porque biblioteca, materiais gratuitos e sebos são ótimos caminhos. Mas, se você curtiu esse caso, procure uma biografia juvenil de Napoleão, que mostra as decisões políticas e não só as batalhas, e uma história em quadrinhos sobre a era napoleônica, ótima para comparar como desenho e texto contam a mesma história.
O que eu descobri 🔎
Minha pergunta era simples: como Napoleão morreu? A resposta ficou bem maior. Ele morreu em Santa Helena, em 5 de maio de 1821, depois de uma doença grave no estômago que terminou num sangramento. O arsênio no cabelo dele é real, mas estava lá a vida inteira, e não prova assassinato. Ah, e um final que eu não sabia: em 1840 o corpo dele voltou para Paris e hoje está no Palácio dos Inválidos (Les Invalides).
Também aprendi uma coisa que serve para qualquer pesquisa (e para qualquer fofoca de grupo de WhatsApp): uma informação pode ser verdadeira e a conclusão tirada dela, errada. “Encontraram arsênio no cabelo de Napoleão” é informação, “então alguém o matou” é interpretação.
Resumo da pesquisa: Revolução Francesa, uma ilha no meio do mar, calças de 200 anos, um reator nuclear e um papel de parede verde. E eu só queria saber como um imperador morreu.

Perguntas frequentes sobre a morte de Napoleão
Quando Napoleão morreu?
Napoleão Bonaparte morreu em 5 de maio de 1821, aos 51 anos, em Santa Helena.
Onde Napoleão Bonaparte morreu?
Na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, numa casa chamada Longwood, onde vivia exilado e vigiado pelos britânicos desde outubro de 1815.
Napoleão morreu de câncer no estômago?
É a explicação mais aceita. A autópsia registrou uma lesão no estômago com sangramento, e estudos modernos dos relatórios e da perda de peso dele apontam para um câncer avançado. Uma revisão de 2020 acrescenta que remédios tóxicos da época podem ter piorado o sangramento.
Napoleão foi envenenado com arsênio?
Não há prova disso. O arsênio no cabelo dele é real, mas aparece desde a infância e também em pessoas próximas, o que indica exposição comum na época, e não um envenenamento planejado.
Por que havia arsênio no cabelo de Napoleão?
No século XIX, o arsênio estava em tintas, papéis de parede, produtos e até em remédios e tônicos. Por isso cabelos daquela época têm cerca de 100 vezes mais arsênio do que os de hoje.
O que Napoleão tem a ver com a Revolução Francesa?
Ele ganhou destaque como militar no período revolucionário, chegou ao poder com o golpe de 1799 e virou imperador em 1804. Ele não começou a Revolução, que é de 1789.
Onde Napoleão está enterrado?
Primeiro foi enterrado em Santa Helena. Em 1840, seus restos foram levados para Paris e hoje estão no Palácio dos Inválidos (Les Invalides).
Continue explorando
Sophia Descobriu 🔎
Eu comecei estudando a Revolução Francesa e terminei pensando em autópsia, química e calças de duzentos anos. Não estava nos planos, mas é por isso que eu gosto de pesquisar: uma pergunta puxa outra, e a História não fica parada no livro didático.
E você? Qual assunto da escola já fez você começar uma pesquisa que foi parar num lugar completamente inesperado? Conte nos comentários e mande este texto para aquele amigo que jura que Napoleão morreu em batalha.
Fontes consultadas
Para escrever este texto, consultei estudos científicos, revistas de ciência e museus. Fontes consultadas em outubro de 2026.
- MARCHETTI, D.; CITTADINI, F.; DE GIOVANNI, N. Did poisoning play a role in Napoleon’s death? A systematic review [em português: O envenenamento teve um papel na morte de Napoleão? Uma revisão sistemática]. Clinical Toxicology, v. 59, p. 658–672, 2021 (on-line em 2020). Acessar.
- LUGLI, A. et al. Napoleon Bonaparte’s gastric cancer: a clinicopathologic approach to staging, pathogenesis, and etiology [em português: O câncer gástrico de Napoleão Bonaparte: uma abordagem clínico-patológica do estadiamento, da patogênese e da etiologia]. Nature Clinical Practice Gastroenterology & Hepatology, v. 4, n. 1, 2007. Acessar.
- LUGLI, A.; KOPP LUGLI, A.; HORCIC, M. Napoleon’s autopsy: new perspectives [em português: A autópsia de Napoleão: novas perspectivas]. Human Pathology, v. 36, n. 4, 2005. Acessar.
- DOBSON, R. Napoleon probably died of stomach cancer [em português: Napoleão provavelmente morreu de câncer no estômago]. The BMJ, v. 330, 2005. Acessar.
- FORSHUFVUD, S.; SMITH, H.; WASSÉN, A. Arsenic content of Napoleon I’s hair probably taken immediately after his death [em português: Teor de arsênio no cabelo de Napoleão I, provavelmente cortado logo após sua morte]. Nature, v. 192, p. 103–105, 1961. Acessar.
- LIN, X.; ALBER, D.; HENKELMANN, R. Elemental contents in Napoleon’s hair cut before and after his death: did Napoleon die of arsenic poisoning? [em português: Elementos químicos no cabelo de Napoleão cortado antes e depois de sua morte: Napoleão morreu envenenado por arsênio?] Analytical and Bioanalytical Chemistry, v. 379, p. 218–220, 2004. Acessar.
- SCIENCEDAILY. Nuclear “eye” reveals that Napoleon was not poisoned, although arsenic levels high at that time [em português: “Olho” nuclear revela que Napoleão não foi envenenado, embora os níveis de arsênio fossem altos na época], 2008 (INFN e universidades de Milão-Bicocca e Pavia). Acessar.
- CERN COURIER. Particle physics proves that arsenic didn’t kill Napoleon [em português: Física de partículas prova que o arsênio não matou Napoleão], 2008. Acessar.
- JONES, D.; LEDINGHAM, K. Arsenic in Napoleon’s wallpaper [em português: Arsênio no papel de parede de Napoleão]. Nature, v. 299, 1982. Acessar.
- JONES, D. Napoleon’s wallpaper [em português: O papel de parede de Napoleão]. Chemistry World. Acessar.
- AMERICAN MUSEUM OF NATURAL HISTORY. Was Napoleon poisoned? [em português: Napoleão foi envenenado?] Acessar.
Nota: texto educativo de História, revisado em outubro de 2026. Os produtos citados são sugestões de leitura e estudo. Próxima revisão prevista: abril de 2027.



